"Vamos viver tudo que há para viver / Vamos nos permitir", são versos da música "Tempos Modernos", de Lulu Santos, que costumam ser adotados como lema no Carnaval para aproveitar ao máximo o período mais animado do ano.
As grandes festas de rua, porém, reúnem fatores que podem
provocar mal-estar ao folião, como exposição ao sol, calor intenso e esforço
físico associados ao consumo de bebidas alcoólicas e até o uso de drogas
ilícitas, como maconha e MDMA (droga sintética, também conhecida como ecstasy,
que gera euforia e sensação de bem-estar)
Saber o que fazer e o que não fazer quando alguém passar
mal é fundamental para um auxílio rápido e seguro. Diante de sintomas como
tontura, escurecimento da visão, palidez, sonolência ou desorientação,
especialistas recomendam medidas simples, como manter a pessoa sentada ou
deitada de lado, afastá-la da multidão e, em alguns casos, oferecer água.
Eles alertam, porém, que algumas práticas populares são
mitos e não devem ser adotadas, como colocar sal na língua, oferecer café,
cheirar álcool ou vinagre, ou chacoalhar e dar tapas no rosto. A reportagem
reuniu as principais recomendações para ajudar foliões que exageram no
Carnaval.
O QUE REALMENTE AJUDA ENQUANTO O SOCORRO NÃO CHEGA
Para o médico emergencista Yuri Castro Santos, do
Hospital Regional de Varginha, em Minas Gerais, a conduta correta é simples e
pode salvar vidas. Ao perceber que alguém está confuso, muito sonolento,
desacordado ou com a respiração alterada, a orientação é ligar imediatamente
para o Samu pelo 192 ou acionar os socorristas da festa.
Enquanto o atendimento não chega, a pessoa deve ser
colocada deitada de lado, em um local seguro, arejado e longe da multidão, e
não deve ser deixada sozinha
A neurologista Leticia Januzi Rocha, vice-coordenadora do
Departamento Científico de Doenças Cerebrovasculares, Neurologia
Intervencionista e Terapia Intensiva em Neurologia da ABN (Academia Brasileira
de Neurologia), acrescenta que, em casos de tontura, palidez e fraqueza, sinais
comuns de queda de pressão ou hipoglicemia, pode-se deitar a pessoa e elevar as
pernas, o que ajuda a restabelecer a circulação.
Se a pessoa estiver acordada, orientada e conseguindo
engolir, podem ser oferecidos pequenos goles de água, soro de reidratação ou
água de coco. Caso contrário, a hidratação não deve ser feita.
Santos explica que o tratamento médico varia conforme a
substância utilizada, mas essa decisão deve ser sempre médica.
MITOS POPULARES QUE ATRAPALHAM
Entre os erros mais comuns, Yuri Santos destaca colocar
sal na língua. "Isso não acorda, não corta o efeito da droga e não melhora
o quadro. Pelo contrário: pode provocar engasgo, vômito e até aspiração do
conteúdo para o pulmão", afirma.
Outra prática frequente é jogar água no rosto. Segundo o
médico, mesmo quando a pessoa está consciente, isso gera apenas um estímulo
momentâneo e não trata intoxicação nem melhora a oxigenação. "Cria uma
falsa sensação de melhora e pode atrasar o pedido de ajuda médica."
Também não se deve oferecer café, bebidas energéticas ou
álcool. "Misturar substâncias sobrecarrega o coração, aumenta o risco de
arritmias e pode agravar muito o quadro clínico, especialmente quando não
sabemos exatamente o que foi consumido", diz.
Rocha reforça que provocar vômito, chacoalhar a pessoa,
forçá-la a andar ou colocá-la sob banho frio são condutas perigosas, que
aumentam o risco de quedas, aspiração e choque térmico.
COMO AGIR EM CASOS DE CONVULSÕES, CONFUSÃO MENTAL E
DESMAIOS
Segundo a neurologista, quadros neurológicos são comuns
no Carnaval, especialmente associados à desidratação, ao calor, ao jejum
prolongado, à privação de sono e ao uso de álcool e outras substâncias. A queda
de pressão e a hipoglicemia estão entre as principais causas de desmaios.
Em crises convulsivas, a orientação é permitir que a
pessoa se movimente livremente, afastando objetos ao redor para evitar
impactos. Nunca se deve colocar a mão ou qualquer objeto dentro da boca. Após a
crise, ela pode ser deitada de lado, porque em caso de hipersalivação ou
vômitos, evitar a broncoaspiração.
A neurologista alerta que confusão mental súbita deve ser
tratada como emergência, sobretudo quando a pessoa não reconhece onde está, não
identifica amigos, fala sem sentido ou apresenta comportamento desproporcional
ao que ingeriu, especialmente se houver sonolência intensa, vômitos, desmaio,
dor de cabeça súbita ou fraqueza em um lado do corpo.
Rocha aponta para os riscos de AVC durante o Carnaval. O
quadro pode acontecer em qualquer ambiente, inclusive em festas. Sinais como
boca torta, fala enrolada, fraqueza em um dos braços, perda súbita da visão,
desequilíbrio ou dor de cabeça intensa e inédita exigem acionamento imediato do
Samu.
"Se a pessoa não está plenamente consciente,
respirando normalmente e orientada, estamos diante de uma emergência. Nessa
hora, menos improviso e mais ação correta podem salvar uma vida",
acrescenta Santos.
MISTURAS PERIGOSAS
Segundo o psiquiatra Dartiu Xavier, professor da Unifesp
(Universidade Federal de São Paulo) e especialista em dependência química,
entre as drogas mais usadas em festas, o MDMA merece atenção especial por ser
um estimulante que eleva a temperatura corporal. Por isso, a hidratação é
fundamental, mas precisa ser feita com cuidado.
"O problema é exagerar na água, o que pode levar à
intoxicação hídrica, quando o sódio do sangue cai demais", explica.
Xavier ressalta que algumas associações de substâncias
são especialmente perigosas. A mistura de MDMA com outros estimulantes, como a
cocaína, é considerada de alto risco. Já o GHB, ou ecstasy líquido, é apontado
como uma das drogas mais perigosas em ambientes festivos.
"O GHB não deve ser associado nem ao álcool nem à
cetamina. A dose letal é muito próxima da dose recreativa, e a pessoa pode
facilmente perder a noção do quanto está usando", alerta.
Outro ponto de atenção envolve medicamentos
psiquiátricos. Ansiolíticos e sedativos, como alguns benzodiazepínicos,
potencializam o efeito do álcool e podem causar sedação intensa e perda de
consciência. Por isso, não é recomendado o uso conjunto. Já os antidepressivos,
segundo ele, não costumam causar esse tipo de sedação quando associados ao
álcool.
Em casos de uso recreativo de substâncias, a orientação
geral é suspender os medicamentos psiquiátricos um dia antes da festa, exceto
quando se trata de um tratamento indispensável, sempre com avaliação médica


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